Meu romance “O Réptil Melancólico” venceu o Prêmio Sesc de literatura. Vou atendendo, aos poucos, ao “chamado das selvas”. Escrever literatura era um projeto fundador do que eu sou e do caminho que vou fazendo, mas foi ficando de lado, frente às demandas da ciência e da gestão. Ia ficando em posts de redes sociais, cartas para os amigos e nos cadernos e papéis enchendo as gavetas daqui de casa, mas chega um tempo em que a ciência, o texto científico, não dão mais conta de narrar o mundo, ou melhor, de narrar politicamente o mundo e, então, vamos atendendo aos tambores, batuques e provérbios que nos chamam. Vamos atendendo ao “chamado das selvas”, o "the call of the wild" de Jack London.

“O Réptil Melancólico” é um livro político. Fala de colonialismo, colonização e colonialidade. Fala da relação entre o Estado brasileiro e a Amazônia. De questões de identidade e pertencimento. Dos sentidos e das narrativas da história. Das alegorias sobre a Amazônia e da Amazônia como alegoria. O “Réptil” vai ser lançado em novembro pela Editora Record.

 

Ah, bom lembrar que o livro é assinado com meu heterônimo Fábio Horácio-Castro, nome paterno que escolhi para escrever ficção e com o qual homenageio o L. F. Horácio-Castro (quem o tiver conhecido entenderá porquê).

Resumo do livro

Este livro fala de colonialidade, colonialismo e colonização. De questões de identidade e pertencimento. Dos sentidos e das narrativas da história. Das alegorias sobre a Amazônia e da Amazônia como alegoria.

 

A narrativa parte do retorno de Felipe para sua cidade, após longa estadia fora do país. Ele seguira para o exílio na primeira infância, levado por sua mãe, militante política perseguida e torturada pelo regime militar brasileiro. Nesse processo de retorno, restabelece contato com sua família paterna, particularmente com seu primo Miguel, que está fazendo o processo oposto: o de partir da cidade.

 

A cidade de ambos é um personagem de fundo do livro, mas seu nome não é enunciado. Aos poucos percebe-se que essa cidade é Belém, ou certa Belém, uma cidade alegórica, povoada por seres e referências imaginárias. A narrativa, barroca, alegoriza a história cultural da Amazônia, em seu isolamento e em sua proximidade a Portugal e ao violento processo de integração nacional promovido pelo regime militar. A luta política dos personagens se dá num contexto geral de colonização, que tematiza o Grão-Pará, ou Amazônia, como um espaço eternamente colonizado.

 

O cenário parte de uma distopia, a ideia de que o velho Estado do Grão-Pará não aderiu à independência brasileira em 1823, restando colônia portuguesa até os anos 1960, quando, no contexto das Guerras Coloniais (guerras de decolonização) portuguesas e do regime salazarista, acaba sendo capturado pelo Brasil do regime militar, que promove uma reescritura geral da história, sugerindo que “na verdade”, a Amazônia “sempre” foi um espaço brasileiro.

 

O texto possui uma narrativa superposta. O elemento dominante é a narração de Felipe, à qual se acrescentam fragmentos narrativos na voz de outros personagens e mesmo do autor. Um recurso importante é o diálogo, que também lida com um componente de superposição: ao diálogo “efetivo”, marcado por aspas, superpõe-se muitas vezes o pensamento dos personagens, “sem as aspas”, formando um jogo compósito que tematiza o mote do romance, seu jogo de ser-não-ser, de aparência-verdade.

 

Nesse mesmo jogo, o romance tem componentes alegóricos: o réptil melancólico que lhe dá o título, figura imaginária que desaparece nas paredes de Belém; a casa do Anfão – cenário onde vive a família dos personagens; o convento do bairro fictício do Moncovo, em restauro por Felipe e pivô de seu retorno à cidade, e vários outros, que se envolvem à narrativa e à intriga permitindo que a história se lance em direção a um segundo plano – digamos assim, ontológico…

O livro sugere o problema da superposição ontológica como uma metáfora para variadas dicotomias: Felipe / Miguel; Retornar a Belém / Sair de Belém; História / Ficção; Amazônia / Brasil; Fato / Alegoria. Nesse jogo, nenhuma essência ou realidade ôntica (a história) pode conter, domesticar, uma existência ou realidade ontológica (a ficção e o ímpeto da política em recriar, reinventar, o mundo).

O autor

Fabio Fonseca de Castro, ou Fábio Horácio-Castro – nome paterno, com o qual assina este livro – é paraense de Belém. Docente e pesquisador na Universidade Federal do Pará, atua no campo das ciências sociais, lecionando no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos e na Faculdade de Comunicação dessa instituição. É autor dos ensaios “A Cidade Sebastina. Era da borracha, memória e melancolia numa capital da periferia da modernidade”, “Entre o mito e a fronteira. Ensaio sobre a figuração da Amazônia na produção artística de Belém” e “As identificações amazônicas”, além de dezenas de artigos científicos publicados. Possui doutorado em Sociologia pela Universidade de Sorbonne/Paris V e pós-doutorado pela Universidade de Montreal.